Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
DATAÇÃO ISOTÓPICA
Como ler os relógios nucleares



O processo de medição e algumas aplicações da datação por carbono-14

Em vez de medir a proporção de carbono-14, o método experimental se baseia na atividade da amostra. Como vimos, ao se desintegrar, o carbono-14 emite uma partícula beta. Essa partícula beta, que não passa de nosso velho conhecido, o elétron, pode ser detectada por um contador Geiger. Esse tipo de contador todo mundo conhece do cinema: é aquele que emite um barulhinho que fica intenso quando se aproxima de alguma coisa radioativa. Cada tique daqueles é uma contagem. Na verdade, os contadores não precisam emitir nenhum som, apenas mostram um número que indica quantas partículas foram detectadas. Pois bem, verifica-se que 1 grama de carbono retirada de um ser vivo ou da atmosfera provoca, em média, 13,6 contagens por minuto. É um número pequeno de contagens mas suficiente para uma medida de boa precisão, dentro de limites que veremos a seguir. Se uma amostra, tirada de um velho pedaço de madeira, só dá 6,8 contagens por minuto, saberemos de imediato que já se passaram 5730 anos (uma meia-vida t) desde que a árvore de onde veio essa madeira foi cortada.

Como a atividade normal do carbono-14 é muito fraca e vai diminuindo com o tempo, caindo para a metade a cada 5730 anos, o método só é confiável para tempos equivalentes a, no máximo, umas 10 meias-vidas. Isto é, para medidas até uns 50.000 anos. Para tempos mais distantes existem outros métodos, como veremos na próxima apostila.


Os primeiros testes da confiabilidade do método de datação por carbono-14 foram feitos pelo próprio Libby e seus colaboradores. Eles mediram a idade de uma amostra tirada da madeira de um caixão mortuário egípcio da época do faraó Zoser. Documentos históricos informavam que esse faraó viveu 2000 anos antes de Cristo. O carbono-14 forneceu um resultado em excelente concordância com o valor histórico. Outras medidas feitas pelo grupo utilizaram amostras tiradas de árvores milenares. A idade dessas árvores pode ser estimada contando o número de anéis em seus troncos. Cada anel indica um ano. Novamente, os valores obtidos com o método do carbono-14 concordaram muito bem com os valores obtidos pela contagem de anéis. A figura abaixo foi adaptada de uma publicação de Libby e seus colegas.
Em 1947, jovens pastores beduínos, procurando por um bode extraviado, entraram em uma caverna no deserto da Judéia e acharam alguns potes cheios de velhos pergaminhos. Os arqueólogos, colegas do Indiana Jones, logo correram para o local e encontraram, nas imediações, milhares de outros fragmentos. Os pergaminhos ficaram conhecidos como os "Manuscritos do Mar Morto", pois a região onde estavam fica perto desse mar. É óbvio que o método de datação com carbono-14 foi usado para estimar a idade desses documentos. As medidas indicaram que eles foram preparados há cerca de 2000 anos atrás, no tempo em que Cristo andava por essas paragens. O erro das medidas puxa esse tempo de uns 200 anos para frente ou para trás.

Fragmento de um manuscrito do Mar Morto.
O que dizem esses manuscritos, que estão escritos em hebreu, aramaico e grego? Na minha opinião, só papo furado. São preceitos piedosos, como fazer penitência e cânticos religiosos. Mas, como foram encontrados na região sagrada de várias religiões e datam do tempo em que, supostamente, Jesus pregava por aquelas bandas, despertaram, e ainda despertam, muita curiosidade dos especialistas e do público em geral.

Mais recentemente, foi feita a datação do famoso "Sudário de Turim". Um sudário é um pano para limpar o suor. Mas, no caso, o Sudário de Turim, ou Santo Sudário, é uma peça longa de tecido contendo um intrigante padrão de manchas que mostram uma figura muito assemelhada com a imagem de Jesus - ou, pelo menos, com o ícone convencional associado a Jesus.

Esse sudário apareceu na Europa no século 13 e, desde essa época, tem sido objeto de muita controvérsia. Já naquele tempo, um bispo encarregado pelo Papa de investigar a autenticidade da peça opinou que era uma fraude. Esse bispo chegou a descobrir um artista que confessou ter pintado a imagem. Assim mesmo, o sudário foi preservado e muita gente acreditava, e ainda acredita, que ele foi a mortalha de Jesus, após ser descido da cruz. No fim do século 19, com os recursos da fotografia, observou-se que um negativo da imagem era uma imagem positiva detalhada e fiel de um corpo humano, inclusive com marcas de feridas nas mãos e nos pés. Isso reforçou a crença dos fiéis, com o argumento de que um falsário não teria o cuidado de produzir uma imagem negativa.

É claro que, desde que surgiu o método do carbono-14, cogitou-se de fazer uma datação de uma amostra tirada do tecido do sudário. A Igreja relutou um bocado em conceder um pedacinho do pano para análise até que, em 1988, forneceu amostras para três laboratórios, na Alemanha, na Suiça e nos Estados Unidos. Os três testes obtiveram valores de datação muito coerentes, todos entre 1250 e 1400, exatamente a época em que o sudário surgiu na Europa.

Portanto, a datação por carbono-14 comprovou que o tecido não tem 2000 anos, como deveria ter se tivesse servido de mortalha para Jesus. Aliás, quem acredita nisso está pondo em dúvida a própria Bíblia. O Evangelho de São João diz que o corpo de Jesus foi envolvido por várias peças de tecido, sendo uma delas um lenço que lhe cobria o rosto. Além disso, os judeus costumavam lavar o corpo de seus mortos e não deveria haver manchas de sangue no tecido, se ele fosse autêntico. Na minha opinião, depois que a datação demonstrou que o pano era do século 13, não há mais razão para acreditar que esse sudário foi mortalha de Cristo. O próprio Cristo, certamente, dispensaria esse tipo de evidência duvidosa de sua passagem pela Terra.


Apostila 5: Outros métodos de datação radioativa.

Apostila 6: Qual é mesmo a idade da Terra?

Apostila 7: Uma visita a um laboratório de carbono-14.

Apostila 8: Quando foi que a mulher chegou ao Piauí?