Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
ORIGEM dos ELEMENTOS


Como George Gamow preferiu a liberdade
Quando eu estava na Europa (não perguntem o ano), um amigo me levou a Bruxelas, onde acontecia uma das famosas Conferências de Solvay, ponto de reunião dos maiores físicos da época. Pois lá, em meio a dezenas de austeros sábios, surgiu um cidadão que falava alto, ria mais alto ainda, gostava de contar piadas e beber vodca.
Era George Gamow, acompanhado de perto por sua mulher, Rô. Não tinha sido nada fácil para ele conseguir licença das autoridades soviéticas para comparecer a um congresso de físicos ocidentais. A feroz ditadura de Stalin já estava fazendo seus estragos, com milhões sendo presos e assassinados, e não via com bons olhos a cooperação com cientistas estrangeiros. Assim mesmo, com interferência de Niels Bohr, Gamow conseguiu ser convidado por Paul Langevin, físico francês que era comunista e tinha algum prestígio com os russos. Mesmo assim, Gamow ainda precisou de usar muita saliva para trazer consigo a mulher, como secretária.
Uma vez no ocidente, Gamow preferiu a liberdade. Trabalhou uns anos na França e na Dinamarca, onde se dava muito bem com Niels Bohr, e acabou indo para os Estados Unidos, onde ficou até morrer.

Autoretrato de George Gamow
Gamow era uma grande figura. Passou todo o Congresso galinhando de um lado para o outro e chegou a me passar uma cantada, quando a mulher se distraiu. Não fui na dele, mas não pude deixar de simpatizar com o descarado.

As histórias sobre Gamow são sempre divertidas. Depois que ele e Ralph Alpher escreveram o artigo "The Origin of Chemical Elements", Gamow convenceu o amigo Hans Bethe, famoso por ter explicado o funcionamento das estrelas, a assinar como co-autor. Bethe aceitou, mas, só depois descobriu a razão: o russo queria que os nomes dos autores (Alpher, Bethe, Gamow) lembrasse a seqüência a, b, g.

Gamow esteve no Brasil e, na ocasião, convidou o físico pernambucano Mário Schoenberg para trabalhar com ele em Washington. Schoenberg foi e, chegando lá, encontrou Gamow aperreado por não saber explicar porque as supernovas implodem. O brasileiro era quase totalmente ignorante em astrofísica, mas, assim mesmo, arriscou um chute: "Acho que você está esquecendo de levar em conta os neutrinos". Bem na mosca! Imediatamente, Gamow compreendeu que era esse o mecanismo que faltava para o modelo que desenvolvera. Como dissemos, os neutrinos são produzidos aos montões no centro da estrela que está no fim da vida. Como não interagem com ninguém, esses neutrinos abandonam a estrela carregando consigo uma enorme quantidade de energia. É o suficiente para romper o precário equilíbrio que mantém a estrela, deixando a gravidade esmagar a matéria de dentro para fora em poucos minutos.


Mário Schoenberg
Como não podia deixar de ser, Gamow fez outras de suas brincadeiras e deu a esse mecanismo o nome de "Processo Urca". No Rio de Janeiro, ele visitara o Cassino da Urca, onde vira como o dinheiro sumia rapidamente nas roletas, implodindo as carteiras dos otários, como os neutrinos escapavam da estrela moribunda.
Os astrofísicos, que não sabiam disso, acharam que a palavra Urca era uma sigla, talvez de "Ultra Rapid Catastrophe". Não conheciam com quem tratavam, os coitados.

Perto do fim da vida, Gamow passou a se dedicar à Biologia. Entre outras coisas, bem antes de qualquer biólogo, propôs um modelo de código genético presente na estrutura do DNA, não muito diferente do que foi desenvolvido bem mais tarde.

Além de ter sido um dos maiores físicos do século 20, Gamow teve uma grande qualidade: escreveu uma série de deliciosos livrinhos de divulgação científica para o público leigo. Muito físico de renome, depois disso, declarou que tinha escolhido a profissão estimulado pela leitura dos livros de Gamow.

Eu mesma, que não sou física nem tenho renome, fui levada a escrever essas apostilas tentando seguir, modestamente, o exemplo do russo, que deve estar, nesse momento, tomando vodca e discutindo ciência com Niels Bohr e o acendedor do big bang.