Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
LONGEVIDADE

A teoria da Evolução, a genética e o envelhecimento


O alemão August Weissmann, que viveu e trabalhou no final do século 19, foi um dos maiores defensores e propagandistas da Teoria da Evolução de Darwin. Em sua época, a genética praticamente ainda não existia, mas, Weissmann já entendia que as células podem ser classificadas em dois tipos. Algumas são encarregadas de manter e transmitir as informaçoes genéticas. As outras, mais numerosas, são células "somáticas", que não participam do processo hereditário. Essa conceituação de Weissmann contribuiu para sepultar a teoria de Lamarck segundo a qual caracteres adquiridos durante a vida poderiam ser transmitidos aos descendentes. Weissmann achava também, corretamente na minha opinião, que o sexo é uma prática muita benéfica pois contribui para gerar variações positivas para a espécie. A reprodução assexuada apenas reproduz o progenitor, enquanto a combinação de genes de pais e mães traz maior variedade, ajudando a seleção natural em sua tarefa de aprimorar a espécie.

Weissmann, quando ainda era um cientista jovem, defendeu a tese de que a morte dos velhos seria benéfica para a espécie, da mesma forma que a morte de células avariadas é benéfica para o indivíduo. Os velhos teriam de deixar um "espaço vital" para os jovens, já que os recursos são finitos. Nada mais alemão. Parece com a posição de professores jovens da universidade que torcem para que os velhos catedráticos morram ou se aposentem, deixando para eles os cargos de direção e os gabinetes.

Segundo a idéia do jovem Weissmann, a duração da vida, em qualquer espécie, já estaria pre-programada nas células dos indivíduos. Hoje, sabe-se que essa hipótese está furada e não tem sustentação nas observações biológicas. Podemos citar pelo menos dois argumentos que contribuem para desautorizar a tese do envelhecimento programado:
1) No ambiente selvagem, os bichos raramente chegam à velhice. Como morrem antes disso, não haveria necessidade para os animais velhos serem eliminados pela evolução. Isto é, a evolução não precisa selecionar genes programados para o envelhecimento pois isso não é necessário para beneficiar a espécie.
2) A programação para o envelhecimento serviria, se existisse, à espécie e não ao indivíduo. Isso leva ao que os biólogos chamam de "problema da trapaça". Alguns indivíduos poderiam receber mutações que desativassem, pelo menos parcialmente, a programação genética para envelhecer. Como eles seriam beneficiados por essa trapaça da sorte, a mutação seria transmitida pela seleção natural. É óbvio que isso não é observado.

Mesmo a programação das mortes celulares, chamada apoptose, não é feita para abrir espaço para novas células, mas, para eliminar células defeituosas, e se dá constantemente, em qualquer idade. Aliás, o próprio Weissmann, quando já velho, abandonou sua proposta inicial. Infelizmente para ele, o pessoal só lembra do que ele escreveu na juventude.

Em 1953, o inglês Peter Medawar propôs que toda espécie teria uma duração de vida média própria que seria dependente de fatores como massa corporal, tamanho, taxa metabólica, etc. Envelhecemos, segundo Medawar, porque temos genes que causam danos e só se manifestam tarde na vida, após a idade de reprodução. Por esse motivo, esses genes estariam livres do processo de seleção natural e seriam passados adiante, de geração em geração, mesmo sendo danosos na velhice. Quando os humanos só conseguiam viver até os 30 anos, no tempo das cavernas, esses genes não tinham tempo de se manifestar. Hoje, com a ajuda da medicina e da higiene, e com a vida "segura" nas cidades, longe de predadores e com fartura na mesa, os humanos passaram a viver bem além da faixa de reprodução, e tornaram-se vítimas desses genes insidiosos.

Essa idéia desembocou em outra na mesma linha de argumentação. O biólogo americano George Williams, recentemente falecido, postulou a existência de genes com várias funções, algumas boas e outras más, que se manifestam em épocas diferentes da vida da pessoa. O exemplo mais citado é a doença de Huntington, que só ataca os velhos e velhas, levando a um estado deplorável de incapacidade física e mental. Como essa doença surge bem após a época em que o indivíduo se reproduz sexualmente, os portadores não são eliminados pela seleção natural e passam a sua carga genética aos descendentes. Hoje, sabe-se que essa doença é causada por um único gene. Ironicamente, quando a pessoa portadora desse gene é jovem, ele contribui para aumentar seu vigor sexual, portanto favorecendo a produção de novos portadores.

Williams deu um nome complicado para sua hipótese. Biólogos adoram esses nomes derivados do grego antigo. Ele chamou o fenômeno de "pleiotropia antagonista", nome derivado de palavras gregas para "coisas com várias funções", umas em oposição a outras. No caso, propõe a existência de genes que são benéficos na juventude (durante a fase fértil do indivíduo), mas que se tornam sacanas na velhice.

A evolução, portanto, contribuiria com dois mecanismos para perturbar a vida dos velhinhos com mazelas de vários tipos. O primeiro mecanismo seria a acumulação de mutações deletérias ao longo da vida. Mutações muito nocivas que ocorrem (aleatoriamente) na fase fértil da vida, podem ser eliminadas pela seleção natural. Isto é, se a pessoa tiver o azar de ser agraciada com uma mutação muito maldosa, pode morrer por causa dela antes de fazer filhos e passá-la adiante. Mas, mutações que surgem após a fase de fertilidade (menopausa e brochura) não são eliminadas e se manifestam como doenças da velhice. O outro mecanismo é a tal "pleiotropia" de Williams. Como apareceram, recentemente, muitas evidências que dão suporte a essa hipótese, vamos falar mais um pouco sobre esse assunto.

Existe um gene, chamado ApoE, presente em nosso genoma e no genoma dos chimpanzés. É ele que cuida, entre outras coisas, do transporte e metabolismo de gorduras pelo corpo, do desenvolvimento normal do cérebro e do bom funcionamento do sistema imune. Esse ApoE tem algumas variantes que só aparecem no genoma humano. Entre elas, o ApoE 4 também serve para a produção de proteínas que provocam febre quando a gente está com alguma virose. A febre é uma reação benéfica pois o calor ajuda a conter a replicação dos virus. Com essa ajuda as crianças podem se defender da ação de micróbios malvados e de doenças infecciosas. Aqui mesmo, no Ceará, na favela do Papouco, em Fortaleza, cientistas brasileiros e estrangeiros descobriram que crianças com o gene ApoE 4 são mais resistentes à diarréia causada por vermes que outras sem essa variante. Esses menininhos mais sortudos, além disso, saem-se melhor nos estudos, já que o gene contribui para melhor desenvolvimento dos neurônios. Em outras palavras, o gene ApoE 4 aumenta a longevidade das pessoas. Pense em um gene legal.

Mas, outros estudos demonstraram que o gene ApoE 4 torna seus portadores, quando envelhecem, mais suscetíveis a desenvolver a doença de Alzheimer e a ter problemas cardíacos. Pense em um gene canalha.

Milhares de anos no passado, quando nossos antepassados ainda estavam nas savanas da África, esses e outros genes resultantes de mutações benéficas contribuiram para prolongar a vida, fortalecendo o sistema imune dos seres humanos. Hoje, porém, quando vivemos muito mais, os mesmos genes surgem para nos assombrar passando a ser nossos inimigos na velhice.

A teoria da Evolução e a Genética, portanto, estão nos ajudando a compreender porque envelhecemos e, também, porque vivemos mais que chimpanzés e outros primatas que compartilham conosco quase todo o genoma que temos em comum. A pequena diferença entre nosso genoma e o genoma de nossos primos primatas, que é da ordem de 2%, pode fornecer explicações para o fato de vivermos pelo menos três vezes mais que eles.

A pergunta que fazemos agora é: será possível aumentar ainda mais nossa expectiva de vida? E o que devemos fazer para atravessarmos a velhice com saúde, sem toda essa carga de mazelas que nos afligem nos últimos anos? Como veremos a seguir, algumas espécies conseguem fazer isso sem ajuda da ciência. Será que a ciência poderá aprender com elas os truques naturais que utilizam para essa proeza? É o que veremos nas próximas apostilas.


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