Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
LONGEVIDADE

Quanto tempo podemos viver?


O divertido escritor paraibano Ariano Suassuna é meu companheiro na ladeira da Curva de Gompertz. Em uma entrevista na televisão ele explicou porque deixou de ser vegetariano: "10.000 anos atrás, os macacos viviam 25 anos e nós, humanos, também. Hoje, um macaco continua vivendo os mesmos 25 anos, comendo só vegetais e fazendo muito exercício. Já nós..."

Ariano tem razão: no século 17, quando Galileu e Newton davam o pontapé inicial na era do conhecimento e da tecnologia, a expectativa de vida dos humanos não chegava a 40 anos. Os dois cientistas foram exceção: Galileu morreu com 78 anos e Newton chegou aos 84.

Como chegamos a essa expectativa de vida mais elevada que temos hoje? Vimos na Apostila anterior que algumas mutações generosas, juntamente com os processos da seleção natural, deram início a esse incremento em nossa esperança de vida. Depois, os avanços da medicina, com novos remédios, procedimentos cirúrgicos, vacinas, medidas sanitárias e os novos costumes de higiene foram ajudando a natureza e empurrando nossa vida média para os valores atuais.

E agora, dá para passar dos 100? Parece que não será fácil. Talvez nem seja possível. Observando como a Curva de Gompertz se modificou nas últimas décadas vemos uma tendência que os demógrafos chamam de "retangularização". O gráfico abaixo mostra, como ilustração, como a Curva de Gompertz variou para uma população hipotética. O padrão é observado, com pequenas diferenças, para a maioria dos países. O termo "retangularização", eu acho, reflete essa tendência da curva para a forma de um retângulo.

Esse gráfico mostra que a vida média aumentou gradualmente, mas a idade máxima não mudou quase nada, ficando em torno dos 100 anos. Será que existe mesmo um limite natural para nosso tempo de vida? Veja o caso das bactérias, bichinhos de uma única célula. Elas levam uma boa vida se não forem atacadas por algum vírus ou por nossos antibióticos. No entanto, quando chega a hora, a morte delas vem de dentro para fora, com o surgimento de enzimas que provocam sua desintegração. Aparentemente, esse mecanismo letal já vem de fábrica e foi armado pela natureza desde que as primeiras bactérias surgiram. Vida e morte vieram juntas. Mas, não se deve confundir essa "morte programada" com "velhice programada", como na tese do jovem Weissmann, que, como vimos, está errada.

Nos seres multicelulares, como nós, um mecanismo semelhante foi incorporado em nossas células com a criação das mitocôndrias. Como vimos em uma Apostila anterior, as mitocôndrias são o resultado de um processo de simbiose entre dois organismos unicelulares. Hoje, elas estão em todas nossas células, com DNA próprio, seguindo algumas regras independentes das instruções de nosso DNA nuclear. Desse modo, elas podem emitir a sentença de morte da célula que habitam, se julgarem apropriado.

A morte de algumas células, porém, não implica na morte do organismo como um todo. Células mortas podem e são substituídas por novas, o tempo todo. A longevidade deve estar determinada por fatores mais complexos.

Tem quem ache que, apesar dos tempos de vida variarem bastante de espécie para espécie, o número médio de batidas do coração durante toda a vida é aproximadamente o mesmo, em torno de 1 bilhão, para os mamíferos. Entretanto, outros acham preferível associar o tempo de vida ao chamado "metabolismo basal" de cada espécie. O metabolismo basal, ou "taxa metabólica", é o valor da energia mínima, por unidade de tempo, para o organismo em repouso e alimentado se manter vivo. Pode ser expresso em Quilocalorias por dia (KCal/dia) ou em Watts (Joules/segundo). O gráfico abaixo mostra como a taxa metabólica dividida pelo peso do animal (W/kg) está ligada à expectativa de vida para algumas espécies.

A taxa metabólica de um ratinho é cerca de 0,2 Watts e seu peso é 20 gramas, mais ou menos. Portanto, ele usa 10 W/kg para viver. Já o elefante precisa de 2.500 Watts e pesa 5.000 kg, logo, consome 20 vezes menos energia por hora que o camundongo. E vive 20 vezes mais. No geral, mamíferos mais pesados têm taxas metabólicas mais baixas e vivem mais. Os humanos ficam um tanto fora dessa curva, provavelmente por viverem em ambientes muito mais controlados.

Aves também têm uma curva como essa acima, mas deslocada para maiores valores dos tempos de vida, como se vê na reta pontilhada. Em média, uma ave vive 3 vezes mais que um mamífero de mesmo peso e mesma taxa metabólica.

Já que as evidências parecem indicar que vai ser difícil aumentar nosso tempo máximo de vida, será que a ciência tem alguma sugestão para que a gente possa atravessar a velhice sem as mazelas características, como a caduquice, o desânimo e outras coisas ainda piores? Vamos falar sobre isso na próxima Apostila.


As mazelas da velhice são compulsórias?

O que dizem os demógrafos sobre a longevidade.