Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
LONGEVIDADE

As mazelas da velhice são compulsórias?


Como fazer para viver mais e ter saúde na velhice? As livrarias e as farmácias estão cheias de receitas milagrosas para isso. Charlatães ganharam e ainda ganham muito dinheiro prometendo o que não podem cumprir. No século 19, um "cientista" francês produziu um líquido a partir dos testículos de bodes que, segundo dizia, aumentava a duração da vida e o vigor sexual. Naquele tempo, era comum o "cientista" demonstrar suas descobertas no palco de um teatro. Lembram do filme "O Jovem Frankenstein"? Pois esse francês, depois de injetar seu elixir em si mesmo, mostrou o efeito da droga com uma tremenda mijada para o público ver e admirar.

Entretanto, o conhecimento é sempre melhor que a ignorância. Pesquisas recentes mostram que é possível extender a vida de algumas espécies, inclusive melhorando a saúde no fim da vida. Observando alguns bichinhos de laboratório os cientistas estão descobrindo que muito se pode aprender sobre o envelhecimento e como adiá-lo ou evitá-lo.

Aproveito a dica para homenagear uma generosa companheira nessas pesquisas, a famosa Caenorhabditis Elegans (C. Elegans), uma lombrigazinha de 1 milímetro de comprimento que teve a glória de ser o primeiro ser vivo a ter seu genoma completamente sequenciado. O pessoal vem conseguindo um jeito de aumentar a longevidade desses elegantes vermes usando alguns truques da genética e talvez seja possível fazer coisa parecida com os humanos, pois as duas espécies têm vários genes em comum. Tanta gente já ganhou Prêmio Nobel estudando a C. Elegans que ela já deveria ter recebido também algum prêmio.

NOTA DO EDITOR: Até agora nenhum ativista invadiu laboratórios para libertar os vermes dos cientistas malvados.

Já se sabe que comer pouco pode prolongar a vida e a saúde. É a chamada "restrição calórica". Ratos de laboratório que receberam menos comida viveram mais e melhor que seus coleguinhas bem nutridos. Qual é o mecanismo biológico que está por trás dessa constatação?

Ao que parece, para entender a razão desse sucesso da restrição calórica, precisamos voltar a falar de nossas amigas, as mitocôndrias. Como vimos em uma Apostila anterior, elas são encarregadas de fornecer a energia necessária para a produção e sustentação das células. Dentro delas há um complexo mecanismo chamado de "respiração" em que elétrons escorrem por uma espécie de linha de produção que termina na síntese do ADP, as moléculas transportadores de energia. Quando tudo está legal, praticamente todos os elétrons são usados no processo. Alguns que escapam podem ser neutralizados por prótons e o resultado é apenas um pouco de calor inofensivo. O perigo surge se, por alguma razão, surgir um desequilíbrio e sobrarem elétrons livres. Esses elétrons fujóes são captados por moléculas que se tornam reativas, as mais numerosas sendo moléculas de oxigênio. Essas moléculas são chamadas de "radicais livres" e têm o mau costume de sair atacando tudo que encontram pela frente dentro da célula. Entre seus malfeitos, atacam o DNA das mitocôndrias provocando mutações deletérias.

Observando esses resultados, alguns pesquisadores sugerem que as mazelas da velhice decorrem desse desequilíbrio que se torna mais frequente com a idade. Surgiu dai a moda dos antioxidantes como panacéia para deter os males da velhice. Logo mais falarei sobre esses antioxidantes, mas, por enquanto, precisamos entender melhor porque os radicais livres surgem nas células e porque a restrição calórica pode ser benéfica.

Acontece que os radicais livres são úteis e indispensáveis para o bom funcionamento de todo o metabolismo celular. Eles servem de "sinalizadores", instruindo a mitocôndria sobre quanto de energia deve produzir para manter o equilíbrio desejado e eficiente. Portanto, devem ser preservados. Já a restrição calórica pode ser útil na manutenção da eficiência do processo de produção de energia nas mitocôndrias, sem deixar de atender às necessidades da célula.

Voltamos, aqui, aos genes, em particular àqueles que estão ligados aos males da velhice, os chamados "gerontogenes". Vamos falar de dois deles, muito estudados por terem funções importantes e por serem suscetíveis de manipulação por drogas. Eles são o SIRT-1 e o TOR. Segundo um pessoal do MIT, o SIRT-1 é responsável pela maioria dos bons efeitos da restrição calórica nos mamíferos. E, tem mais. Ele pode ser ativado por uma moleculazinha chamada "resveratrol" que é encontrada no vinho tinto. Eles mostraram que essa molécula prolongou a vida de ratinhos obesos. Como não podia deixar de ser, essas afirmações provocaram um enorme alarido na imprensa. Uma taça de vinho por dia faz viver mais! Só que se esquecem que uma taça de vinho tem apenas 0,3% do resveratrol dado aos ratinhos de laboratório. O cara precisaria beber 1.000 taças de vinho por dia para conseguir o mesmo efeito. Vai morrer de cirrose bem mais cedo.

O outro gerontogene, o TOR, atua no sistema imune. O lado ruim é que causa resistência à insulina, podendo contribuir para desenvolver a diabetes tipo II. O lado bom é que, bloqueando esse gene é possível fazer o sistema imune sossegar um pouco, controlando a atividade inflamatória que dá origem à maioria dos males da velhice. O nome TOR significa "target of rapamycin", isto é, ele pode ser bloqueado por uma droga, a rapamicina, que é fartamente usada nos transplantados de órgãos e tem a vantagem de não ser cancerígena. Verifica-se, examinando o sangue dos transplantados, que a rapamicina induz efeitos semelhantes aos obtidos pela restrição calórica. Por enquanto, os pesquisadores estão estudando se os transplantados conseguem se livrar das doenças da velhice em número estatisticamente maior que os demais, que não fizeram nenhum transplante.

A rapamicina é uma droga tão interessante que vale a pena falar mais um pouco sobre ela. Foi descoberta em 1970, no solo da Ilha de Páscoa, em um local chamado Rapa Nui - daí, seu nome. Com a notícia de que pode ser benéfica, inibindo a atividade do gene TOR, caiu na rede do pessoal que quer ganhar um trocado e já pode ser encontrada até na internet. Um vidrinho com 5 miligramas custa uns 100 dólares. Entretanto, não é aconselhável usar a rapamicina sem nenhum motivo clínico, pois o gene TOR é importante para muita coisa, inclusive para o aprendizado e a memória.

Não há dúvida que o avanço no conhecimento dos genes trará muitos benefícios ao estudo da longevidade. Além de nosso DNA nuclear, também o DNA das mitocôndrias é importante nessas pesquisas. Cientistas japoneses, estudando conterrâneos centenários, descobriram que eles têm mitocôndrias com mutações em seu genoma, inexistentes nas mitocôndrias de outros que não chegam a idade tão avançada. O surpreendente é que essas mutações no mtDNA dos japoneses sortudos é minúscula, apenas uma "letra" trocada em um determinado gene. Além de viverem mais, esses premiados ainda gozam de mais saúde na velhice que os demais. Essas notícias mostram que a genética terá papel importante na tentativa de aumentar a longevidade.

Voltemos, então, aos radicais livres que são produzidos por falhas no balanço da respiração nas mitocôndrias. Na década de 50 do século passado, um pesquisador americano propôs que o envelhecimento é devido aos danos causados por radicais livres. Realmente, sabe-se que o excesso de radicais livres é danoso, e que esse excesso se acentua com a idade. Surgiu, então, a moda dos antioxidantes. A idéia era simples: esses antioxidantes serviriam para equilibrar o sistema em funcionamento precário. Como se sabe, os radicais livres, além de produzirem danos aos componentes da célula, são sinalizadores da apoptose, o mecanismo que faz uma célula se suicidar, literalmente. Todo esse desastre levaria, eventualmente, ao envelhecimento e decrepitude do organismo. Os antioxidantes evitariam essa catástrofe.

A idéia era original, bem composta e, até razoável. Mas, revelou-se, com o tempo, cheia de furos. Para começar, como a gente viu acima, os radicais livre têm serventia e, se foram usados e mantidos pela seleção natural, bloquear sua ação poderia até ser perigoso. Além disso, as pesquisas mostraram que o organismo se protege eliminando o excesso de antioxidantes ingeridos. Sai na urina, como se diz.

Entretanto, é inegável que os resultados de laboratório mostram que os radicais livres encurtam a vida. Quanto mais vazamento de radical livre, mais curta é a expectativa de vida para a maioria de espécies. O vazamento de radicais livres cresce com a taxa metabólica. E, como vimos antes, altas taxas metabólicas casam com vida curta. Ratinhos têm alta taxa metabólica e corações batendo rápido. Com tanta pressa, o processo de respiração nas mitocôndrias desses ratinhos produz muitos radicais livres e a vida deles é curta. Animais maiores, como os elefantes, são lerdos, têm baixa taxa metabólica, pouco vazamento de radicais livres e vivem bastante. Vimos também que aves têm altas taxas metabólicas, mas, por alguma razão ainda não bem explicada, produzem poucos radicais livres e vivem vidas mais longas que mamíferos de mesmo peso.

Além de viver mais, espécies com menor vazamento de radicais livres têm melhor saúde. Por todas essas razões, controlar o vazamento de radicais livres parece ser a melhor estratégia da evolução para garantir vidas mais longas e saudáveis.

Os malefícios do vazamento de radicais livres podem estar relacionados com falhas no sistema de sinalização. Como vimos acima, quando a gente é jovem os radicais livres são parte importante da regulagem da cadeia respiratória nas mitocôndrias. Quando a gente envelhece, as mitocôndrias começam a escassear e a sinalização dos radicais livres passa a ser errada, ativando genes que não deviam ativar e causando as inflamações que surgem na velhice. Um desses genes que são ativados é o ApoE E que, como vimos, é útil na infância e passa a ser prejudicial na velhice.

Agora podemos entender melhor porque a restrição calórica pode retardar a velhice e suas mazelas. Ela contribui para diminuir o vazamernto de radicais livres, protegendo as mitocôndrias e contendo os sinais de apoptose. Dessa forma, conseguem silenciar um monte de genes causadores de inflamação e provocadores de doenças da velhice. Até certo ponto, a restrição calórica faz a gente ficar mais parecido com as aves.

Supondo que a vida possa realmente ser prolongada, produzindo multidões de velhinhos transviados, cheios de saúde, curtindo a aposentadoria, será que isso é desejável? Ou será que vai complicar ainda mais a vida na Terra, levando à superpopulação e à disputa acirrada pelos recursos já limitados? Esse é um problema para os demógrafos e vale a pena saber o que eles pensam sobre isso. É o que veremos a seguir.


O que dizem os demógrafos sobre a longevidade.