Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
AS MITOCÔNDRIAS

Recapitulando a biologia das células.

Quando estudei e ensinei ciências nas escolas secundárias achava Biologia uma das matérias mais maçantes. Montes de termos horríveis para decorar e recitar nas provas. Hoje, tudo está mudado - e para melhor. Não que a matéria tenha ficado mais fácil; ficou muito mais divertida. A biologia molecular e a genética transformaram essa disciplina em algo muito excitante. Os professores de Biologia me perdôem, mas, acho que essa mudança para melhor se deu porque a disciplina ficou mais parecida com a Física e a Química.

Digo essas coisas porque vou ter de fazer um pequeno resumo do que meus leitores devem saber sobre as células, para melhor compreensão do que vem depois. Se você está bem lembrado do que aprendeu nas aulas de Biologia, pode pular para a apostila seguinte. Para quem vai encarar o resto dessa apostila, prometo que serei o mais breve possível. E, para os professores da matéria, peço desculpas se vou pecar por excesso de simplificação.

Todo ser vivo é feito de células. As bactérias e alguns outros bichinhos miúdos possuem só uma célula - são unicelulares. As plantas e os animais possuem montões delas. Nosso corpo é formado por trilhões de células. Na minha opinião, o fato de sermos feitos de células - e não de um bloco contínuo e gosmento de matéria orgânica - atesta de forma inequívoca que fomos formados aos poucos, a partir de organismos bem mais simples.

Existem semelhanças e diferenças fundamentais entre as células de bactérias e as células de animais como nós, além do número delas em cada caso. Vou falar dessas diferenças e semelhanças pois elas vão explicar muita coisa que veremos mais adiante.

A diferença mais marcante entre as células das bactérias e as células das plantas e dos animais é a ausência ou presença de um núcleo. Essa diferença é tão importante que provoca uma classificação. Células com núcleo (como as nossas) são chamadas de eucarióticas, onde o prefixo "eu" significa "verdadeiro" e "cario" significa "núcleo". Células sem núcleo, como as bactérias, são ditas procarióticas, onde o prefixo "pro" significa "anterior". Como você pode ver, o próprio nome já sugere que as células sem núcleo antecederam as células com núcleo.

As figuras mostram esquemas simplificados de uma célula procariótica (esquerda) e uma célula eucariótica (direita). As escalas estão erradas, pois as eucarióticas são muito maiores que as procarióticas.

Toda célula tem uma membrana que delimita seu espaço. Nas bactérias, a membrana é bem fininha e está protegida por uma espécie de parede rija, além de uma cápsula. Nas células eucarióticas, a membrana é flexível e pode mudar de forma com facilidade. Em todos os casos, as membranas precisam ser permeáveis para permitir a troca de material com o exterior.

Toda célula tem "cromossomos", as estruturas onde moram os genes que orientam a produção de proteínas. Nas bactérias, os cromossomos tomam a forma de anéis circulares e ficam mais ou menos livres dentro da célula. Nas eucarióticas, os cromossomos são linhas abertas e moram no núcleo. Como todos sabem, os genes são partes de molélulas de DNA (ácido nucléico). Cada gene corresponde a uma proteína. A coleção de genes de um organismo é o seu "genoma". Nosso genoma tem mais de 30.000 genes. O genoma da maioria das bactérias é muito reduzido, com pouquíssimos genes. Mais adiante, veremos o porque dessa diferença.

Toda célula tem, também, "ribossomos", pequenas fábricas de proteínas que funcionam seguindo as instruções dos cromossomos. Os ribossomos contêm outro ácido nucléico, o RNA, que é dito nucléico por engano, pois não mora no núcleo.

Toda célula tem algum mecanismo para transformar seus alimentos em energia. Existem vários tipos de mecanismos para produção de energia nas células; alguns deles serão descritos mais tarde.

As células eucarióticas são muito maiores que as procarióticas, em volume. Dentro delas cabem vários tipos de pequenos órgãos, ou organelas. A figura mostra algumas dessas organelas. As mitocôndrias são organelas presentes nas células de animais e plantas. Nas plantas, além das mitocôndrias, existem os cloroplastos, responsáveis pela fotossíntese. O interessante desses dois tipos de organelas, como veremos a seguir, é que elas possuem seus próprios DNAs e suas linhas próprias de produção de proteínas. Posso adiantar, sem temor de perder o suspense dessa narrativa, que isso evidencia a origem bacteriana dessas organelas.

Outra distinção significativa entre as células eucarióticas e procarióticas é a presença, nas primeiras, de uma rede de fibras, o citoesqueleto. Essas fibras são tão fininhas que nem aparecem na figura acima. Como o nome sugere, esse citoesqueleto serve de suporte estrutural à geometria da célula. As bactérias, que não têm citoesqueleto, mantêm sua estrutura por causa da parede rígida de suas células. A vantagem, para as eucarióticas, é a possibilidade de mudar facilmente de forma. Frequentemente, elas usam essa capacidade para envolver e engolir seus alimentos, em um processo conhecido como fagocitose.

Se você teve paciência de me seguir até aqui, alegre-se pois acabei essa tediosa recapitulação. Agora já posso contar a história das mitocôndrias, começando por sua fascinante origem.


Origem das mitocôndrias: a teoria da endossimbiose.

Produção de energia nas células.

Por que nossas células são grandes e as bactérias são pequenas?

E por que envelhecemos?!

O poder das mulheres: a Eva mitocondrial.

Lynn Margulis: uma provocadora inquieta.