Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
A DESCOBERTA DO NÊUTRON

Nossos personagens: Irene e Frederico Joliot-Curie na França e James Chadwick na Inglaterra.



Irene e Frederico Joliot-Curie

Irene Joliot-Curie foi uma mulher extraordinária e, no entanto, pouca gente conhece sua história, talvez porque seu nome foi ofuscado pelo brilho de sua famosa mãe, Maria Curie. Tenho para mim, no entanto, que o talento da filha era parelho do da mãe, sendo que Irene era mais bela e elegante, além de ser uma corajosa socialista que desafiou os fascistas da Alemanha e dos Estados Unidos.

Maria Curie teve duas filhas, Irene e Eva. Quando as conhecí, na Paris dos anos 30, eram duas belas jovens com uma diferença: Eva era uma intelectual vaidosa e um pouco fútil, enquanto Irene, de porte naturalmente elegante, era uma cientista compenetrada e trabalhadora que, como a mãe, preferia se vestir com sobriedade.

Já seu marido e colaborador, Frederico Joliot, era um homem charmoso, de boa conversa, tão competente quanto a mulher. Os dois se conheceram quando Frederico, por indicação de seu orientador Paul Langevin, foi trabalhar no laboratório de Maria Curie, onde Irene já era uma assistente graduada. Se foi amor à primeira vista eu não sei. Só sei que, quando se casaram, Irene adotou o sobrenome do noivo, o que é natural, e Frederico adotou o sobrenome da noiva, fato incomum mas, a meu ver, bem romântico.


Irene Joliot-Curie


Frederico Joliot-Curie

Frederico, seguindo os passos de seu ex-orientador, Paul Langevin, era comunista e colaborou com a resistência francesa durante a ocupação alemã. Irene passou alguns anos da guerra em um hospital na Suiça, tratando-se de uma tuberculose. Em 1943, ao tentar entrar clandestinamente na França, foi presa e teve de passar um tempo em um campo de refugiados. Após a guerra, a penicilina já disponível, recuperou a saúde e voltou às atividades científicas e políticas. Em 1948 foi detida ao chegar aos Estados Unidos onde pretendia pedir ajuda para refugiados espanhóis, vítimas de Franco. Novamente, teve de passar uns dias em um campo de prisioneiros até que a embaixada francesa conseguiu retorná-la à França.

Irene e Frederico Joliot-Curie ganharam o prêmio Nobel de Química de 1935 por terem sidos os primeiros a sintetizar isótopos radioativos. Irene, além de suas qualidades científicas e políticas, era uma competente administradora. Foi diretora do Instituto do Radium, sucedendo sua mãe, e fez parte da Comissão de Energia Atômica do governo francês.

Assim mesmo, nunca foi aceita na Academia de Ciência da França. Os membros dessa ridícula academia, velhos machistas, não aceitavam mulheres como colegas. Nem Maria Curie, apesar de toda sua fama, venerada por todo o mundo, foi aceita. Esses franceses...

Irene morreu em 1956 de leucemia, a mesma causa da morte de sua mãe. Provavelmente, ambas foram vitimas das longas exposições a radiação. Frederico morreu dois anos depois e foi enterrado como herói de seu país.

James Chadwick

O inglês James Chadwick queria ser matemático mas, quando foi fazer o vestibular entrou, por engano, na fila dos candidatos ao curso de Física. Por timidez, não trocou de fila e acabou se formando em Física, tirando a sorte grande, pois, anos depois receberia o prêmio Nobel.

Em 1913, depois de receber seu grau de Mestre, Chadwick foi trabalhar na Alemanha com Hans Geiger, aquele que inventou o famoso contador de radiação. Quando estourou a Primeira Grande Guerra foi imediatamente preso e passou todo o conflito em um campo de prisioneiros. Logo que a guerra acabou voltou ligeirinho (e meio adoentado) para a Inglaterra onde teve a sorte de trabalhar com o grande Ernest Rutherford, descobridor do núcleo atômico.


James Chadwick
Rutherford achava que os núcleos deveriam conter, além dos prótons eletricamente positivos, partículas neutras que seriam uma combinação de prótons e elétrons. Chadwick se empenhou na busca por essas partículas até que, em 1932, com uma série de experiências muito bem elaboradas, achou o que procurava. Com sua modéstia e timidez características, publicou um artigo de meia página na revista Nature intitulado "Possível existência de um nêutron". Esse pequeno artigo rendeu-lhe o prêmio Nobel de Física de 1935, mesmo ano em que os Joliot-Curie ganharam o prêmio de Química.

Esse será o assunto das próximas apostilas. Como você verá, o caminho até a "descoberta" do nêutron por Chadwick foi cheio de desvios e enganos. Ótimo exemplo para ilustrar a forma tortuosa como costumam ser feitos os progressos da ciência.


3 - As experiências do casal Joliot-Curie com uma enigmática radiação neutra.

4 - Como James Chadwick descobriu o nêutron

5 - As conseqüências da descoberta do nêutron: mais tiros no escuro.