Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
LATTES


O Brasil nunca ganhou um prêmio Nobel, nem de ciências, nem de literatura, nem da paz. Mais um motivo para atiçar nosso crônico complexo de inferioridade, recentemente aguçado pelos insucessos da seleção nacional de futebol.

Quem chegou mais perto, pelo menos em Física, foi Cesar Lattes, curitibano que detetou, juntamente com o inglês Cecil powell e o italiano Peppo Ochialini, o fugidio meson pi, partícula prevista pelo japonês Hideki Yukawa, em 1935. Segundo Yukawa, esse meson teria uma função semelhante à da turma do deixa-disso, convencendo prótons e neutros a conviverem em paz dentro do núcleo, apesar dos prótons quererem se repelir mutuamente.

Só que ninguém conseguia detetar esse tal meson, por mais que os físicos experimentais tentassem, nos aceleradores da época.

Foi nessa situação que Lattes chegou à Inglaterra, em 1946, aos 22 anos, para trabalhar com Cecil Powell, inventor um belo processo de detetar partículas utilizando emulsões fotográficas. Como o acelerador de Powell parecia não ter energia suficiente para produziir os mesons, Lattes sugeriu procurá-los nos raios cósmicos, partículas de alta energia que estão continuamente chegando à Terra, vindas do espaço exterior. Para melhor captar os raios cósmicos é necessário legar as chapas fotográficas para grandes altitudes. Ochialini, que estava indo de férias para os Pirineus, levou algumas chapas para ver no que dava. Deu certo.
Yukawa, à esquerda, e Cesar Lattes.
Essas fotografias mostraram as primeiras evidências do furtivo meson pi que os físicos procuravam há 12 anos. Para comprovar essas observações, Lattes viajou para a Bolívia, local elevado que intimida nossa seleção. E lá, a mais de 5.000 metros de altitude, Lattes conseguiu excelentes chapas, com vários eventos de meson pi. Alguns especialistas ainda tinham dúvida acerca da validade desses resultados, mas, Niels Bohr deu a palavra final, aprovando as observações da equipe.
Em 1948, Lattes foi para a Califórnia com a intenção de tentar produzir os mesons no acelerador da Universidade de Berkeley, um dos mais potentes da época. O cientista chefe desse acelerador era Eugene Gardner, que até já desistira de achar os mésons em sua máquina. Pois em menos de um mês após chegar em Berkeley, Lattes conseguiu ver o meson pi entre as partículas produzidas no acelerador de Gardner.
Cesar Lattes e Eugene Gardner no acelerador de Berkeley.
As pesquisas sobre o meson pi deram o prêmio Nobel de 1949 a Yukawa e o de 1950 a Powell. Por que Lattes e Ochialini não ganharam? Lattes, na época de sua importante descoberta, tinha apenas 23 anos. Mas, isso não explica porque foi preterido pois Josephson, como vimos, era ainda mais moço quando fez seu trabalho. Será que foi por ser brasileiro e o destino de brasileiro é não ganhar o prêmio Nobel?

Consta que Niels Bohr, incentivador de Lattes, escreveu um documento onde diz "porque Cesar Lattes não ganhou o Nobel". Infelizmente, Bohr instruiu que todo o material que deixou só deveria ser divulgado 50 anos após sua morte. Como Bohr morreu em 1962, só em 2012 vocês (curiosos!) saberão o que Bohr disse sobre esse enigma. É pouco provável que eu ainda esteja por aqui para conhecer o conteúdo dessa carta. Nem Lattes, coitado.

NOTA do EDITOR: César Lattes faleceu em 8 de Março de 2005.


7 - HOYLE - Não ganhou por não ser convencional e certinho. Do mesmo modo que Borges.