Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
HOYLE


Antes de ganhar o prêmio Nobel você precisa ser um garoto bem comportado. Depois de ganhar, é claro, estará livre para fazer qualquer parvoíce, como já vimos. O fato é que gente polêmica não é do agrado do comitê sueco. Veja o caso de Jorge Luis Borges, um dos mais criativos escritores do século 20, imaginação prodigiosa e estilo inimitável. Morreu sem ter ganho o Nobel de literatura, seguidamente concedido a gente de muito menos expressão. Borges era um aristocrata, meio direitista que não reclamou da feroz ditadura que se instalou na Argentina. Na certa, isso desagradou os suecos. Mesmo assim, foi injustiçado.
Outro que mereceu e não levou foi o recentemente falecido astrofísico inglês Fred Hoyle. Na certa, dois fatores pesaram contra ele. Primeiro: ele era um cosmologista quando essa atividade era considerada mais especulação que ciência. E, pior, Hoyle sempre gostou de uma boa polêmica. Não acreditava no big-bang, termo que ele próprio inventou, fazendo troça, mas que pegou muito bem entre cientistas e público leigo. Juntamente com Hermann Bondi e Thomas Gold, outro polemista de carteirinha, criou a teoria do Universo Estacionário, que não teria tido começo nem teria fim. Hoje, aparentemente, as evidências a favor do big-bang são muito fortes e o modelo de Hoyle anda bem desacreditado.
Fred Hoyle.
O que ninguém pode contestar é que os trabalhos de Hoyle sobre a origem dos elementos foi fundamental. Em 1957, surgiu um artigo que se tornou um clássico da literatura científica, intitulado "Síntese dos elementos nas estrelas". Seus autores eram G. Burbidge, M. Burbidge (marido e mulher), W. Fowler e F. Hoyle. O artigo ficou conhecido por B2FH. Nesse trabalho foi mostrado, pela primeira vez, como os elementos são produzidos nos núcleos quentíssimos das estrelas. A partir desse momento, a astrofísica começou a ser considerada uma ciência experimental.
(NOTA DO EDITOR: Veja a apostila de D. Fifi sobre A ORIGEM DOS ELEMENTOS.)

Assim mesmo, o prêmio Nobel de Física de 1983 foi dado a Fowler e Hoyle ficou na saudade. Até o próprio Fowler protestou contra essa injustiça. Em seu discurso, ao receber o prêmio, prestou homenagem ao colega e afirmou que tinha sido Hoyle o autor, em 1946, da idéia da nucleossíntese nas estrelas. É bom também mencionar que essa teoria é considerada um dos mais fortes argumentos a favor do big-bang. Curiosamente, Hoyle forneceu armas aos adversários, o que mostra sua honestidade científica genuina.
William Fowler.
É provável que as atitudes não ortodoxas de Hoyle tenham pesado contra ele. Uma delas foi o apoio que deu à idéia da "panspermia", lançada pelo químico sueco Svante Arrhenius, segundo a qual a vida é algo extremamente freqüente no universo. Microorganismos estariam disseminados na poeira inter-estelar, espalhando-se e reproduzindo a vida sempre que encontrassem algum ambiente propício, como o planeta Terra. Em outras palavras, a vida seria um fenômeno cosmológico.

Hoyle também dizia que o universo tem uma inteligência própria e tudo que nele ocorre estaria seguindo uma linha de ação pre-programada. Não me pergunte por quem. Como Hoyle escreveu vários livros de ficção científica, a gente fica sempre na dúvida se ele falava sério ou se estava apenas jogando conversa fiada para animar o ambiente.
A verdade é que, se não existissem figuras como Fred Hoyle, George Gamow e Thomas Gold, a rotina da ciência seria muito chata. Hoyle pode não ter ganho o Nobel mas nossa seleção de 1982 também não ganhou a Copa do Mundo. São as trapaças da sorte.