Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
OS RAIOS CÓSMICOS

Lattes e o méson pi


Os físicos brasileiros, como vimos, começaram a trabalhar com raios cósmicos antes da segunda guerra, com a ajuda de Wataghin. Vários jovens físicos, entre eles Leite Lopes, Tyomno e outros, foram mandados para os Estados Unidos e Europa onde trabalhariam com alguns dos maiores físicos da época, como George Gamow e John Wheeler.

Cesar Lattes foi para a Inglaterra juntar-se ao grupo de Cecil Powell, talvez a maior autoridade no uso das "emulsões". Nessa altura das coisas, já se sabia que o méson descoberto por Carl Anderson não era a partícula prevista por Yukawa. Hans Bethe propôs a existência de dois mésons, o de Yukawa, que seria encarregado de mediar a interação entre as partículas do núcleo atômico, e o de Anderson, que ninguém sabia para que servia. Consta, até, que o físico Isidor Rabi teria dito sobre o méson de Anderson: "Quem encomendou isso?"

Pois já em 1947, Lattes, Powell e Occhialini descobriram o outro méson que ficou sendo chamado de méson-pi, ou "pion". Esse novo méson decai rapidamente em partículas mais leves, entre elas, vejam só, o méson de Anderson, o muon.


Primeira emulsão obtida por Lattes, Powel e Occhialini onde se vê a geração de um pion em A e sua captura por um núcleo em B.
O pion descoberto por Lattes e seus colegas era, certamente, a partícula de Yukawa. Sua vida média é curtíssima, exatamente pelo gosto que ele tem em interagir com as partículas nucleares. Quando ele é produzido na colisão de uma partícula cósmica com um núcleo da emulsão rapidamente é capturado por outro núcleo, dando origem a outras partículas.

Em 1948, Lattes foi trabalhar na Califórnia onde conseguiu detetar o méson-pi produzido artificialmente em um acelerador. Depois desses sucessos, voltou ao Brasil e ajudou a criar o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e o Conselho Nacional de Pesquisas. Pelo que sei, hoje em dia ainda está muito vivo e falante, em Campinas.

NOTA do EDITOR: Depois que D. Fifi escreveu essa apostila, César Lattes faleceu em 08 de Março de 2005.


Hideki Yukawa e César Lattes
Nas décadas de 50 e 60, começou a febre dos aceleradores de partículas. Era mais prático trabalhar com as partículas geradas de forma controlada que apostar na loteria dos raios cósmicos. Na França, Pierre Auger e Louis-Leprince sentiram a tendência e foram ajudar a criar o CERN, onde hoje estão os maiores aceleradores do mundo. A era heróica dos raios cósmicos acabara.

Mas, existe uma coisa nas partículas cósmicas que não pode, pelo menos atualmente, ser reproduzida nos aceleradores: a escala enorme de energia. Como veremos na próxima apostila, a turma dos raios cósmicos está dando a volta por cima, como diria o Vanzolini, apresentando resultados e desafios que estão dando nova vida a esse ramo da física.


6 - O mistério dos raios cósmicos de altas energias.